A pseudoliberdade pra tudo.

É notável perceber que a reconceituação de liberdade nas últimas décadas transformou essa palavra que antes carregava tanto significado e questionamento em simplesmente uma espécie de trono, onde quem ali se sentar terá o poder não só pra tudo que lhe convém, mas pra tudo que é possível, beirando até o que carece de sentido. Dissociar liberdade de responsabilidade e dever é um caminho que a sociedade tem transformado lentamente em cultural e que é extremamente nocivo e mortal tanto para a sociedade em si, quanto para o caráter humano comum.

Há de se considerar a curta memória histórica que cativamos hoje, e recordar que toda a história do homem e da sociedade se deu a partir de deveres e não direitos, a construção das idéias e das instituições que ainda hoje são os pilares morais e constitucionais do nosso mundo surgiram a partir da consciência de que liberdade e responsabilidade são inseparáveis.

Num momento onde a ideologização se torna algo superior a própria verdade, é extremamente comum confundir liberdade com cegueira. A falsa crença de que a liberdade se dará por si só sem te cobrar nada em troca, sem que para existir um direito isso não se torne um dever alheio, é nada além de uma utopia que te pressupõe estar livre cego, inerte e acorrentado.

Liberdade nunca teve em seu sentido um significado tão besta quanto hoje, acreditar cegamente que é livre enquanto é escravo da própria concepção do que é de fato ser livre. Parafraseando Johan Goethe '' Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser''. Platão dizia que a concepção do homem se assemelhava a uma carruagem, onde o corpo seria a própria carruagem, o ser, o homem que a conduz, o pensamento, as rédeas, e os sentimentos, os cavalos. Se considerar livre sem controlar a própria carruagem é abrir mão das rédeas, é deixar que os cavalos te guiem para onde eles quiserem, é ser, além de tudo, escravo. É em suma acreditar que você tem direito a tudo, acesso a tudo e poder pra tudo, e por isso deve exercer todas essas ramificações de ''liberdade'' e entregar correntes que te amarram nas mãos as paixões, nos pés aos prazeres e na alma a efemeridade.

Em uma das suas cartas aos Coríntios São Paulo escreve uma frase que ainda ecoa nos dias atuais e continua a ter o mesmo sentido que tinha a dois mil anos atrás : “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. Não existe de fato liberdade na ausência de moralidade, de deveres e responsabilidades. Entregar-se a essa utopia é cavar, com as mãos amarradas, o próprio tumulo de insuficiência e efemeridade que a escravidão te levará.
É enxergar nada além do escuro e acreditar não ser cego, é ser escravo da pseudoliberdade pra tudo.
Sobre o(a) Autor(a):
Paulo Santos
Paulo H. Santos é universitário de história e estudante voluntário e apaixonado de filosofia entre outras áreas de estudo.

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