Jogo ainda exclusivo do Windows 10



Análise da versão 1.0.0.2



CONTEXTO

Automobilista 2 comemora os 10 anos da Reiza Studios, empresa situada na cidade de Maringá, no Paraná, e é ao mesmo tempo a celebração da história desta softhouse e do automobilismo brasileiro.

Acompanho o desenvolvimento do jogo desde o lançamento do Acesso Antecipado do Steam, em março de 2020, e finalmente seu lançamento oficial no dia 31 de junho do mesmo ano. Eu nunca vi uma empresa ser tão próxima e atenta ao feedback de sua comunidade e muito menos uma que atenda tão rápido às expectativas de seus fãs. Nesses três meses de teste, AMS2 se desenvolveu a um nível em que muitos simuladores consagrados precisaram de anos para atingir. Por isso entenda todas as críticas que eu fizer a seguir serão apenas sobre problemas pontuais que com muito provavelmente serão passageiros.





DO QUE SE TRATA

Automobilista 2 é um simulador hardcore (aka: que tenta simular os mínimos detalhes da física e procedimentos de uma corrida de automotores) multi categorias e que se propõe a se tanto uma opção para quem gosta de jogar sozinho (contra a inteligência artificial, apenas treinando sozinho ou disputando no ranking mundial de voltas mais rápidas) como para aqueles que buscam corridas online contra outros jogadores.

No atual cenário isso se torna algo muito mais ambicioso do que outrora, pois o gênero corrida evoluiu demais nos dois critérios, mas não existe nenhum jogo que realmente entregue as duas coisas de maneira primorosa. De todos os estúdios relevantes, a Reiza é de longe o mais carente em recursos, porém também é, de longe, o pessoal mais produtivo do mercado.

Pessoalmente acho que vale um voto de confiança para suas promessas, porém não aconselho ninguém se iludir achando que algum milagre será feito.





COMO FUNCIONA

Em questão de conteúdo oficial (excluindo mods), o único jogo que rivaliza AMS2 em variedade + qualidade é iRacing. A diferença é que por R$120 você compra o jogo da Reiza com uma enorme gama de veículos e pistas enquanto que para ter a mesma variedade em iRacing é preciso gastar um bocado mais do que mil reais (estou chutando baixo já que cada carro e pista adicional em iRAcing custa aproximadamente R$50).

O conteúdo de AMS2 se foca muito em categorias brasileiras, apesar de ter uma grande quantidade de conteúdo internacional (e ambos tendem a aumentar muito tanto com atualizações gratuitas como DLCs pagos). Então é possível andar com uma boa variedade de karts (cinco modelos totalmente diferentes) na Granja Viana, acelerar caminhões em Tarumã, Pumas, Fuscas, Passats, Gols e Unos na finada Jacarepaguá, ou os carros da Stock Car Brasil de diferentes eras, da primeira de 1979 até os novos carros de 2020 (que, inclusive, muitos pilotos reais conheceram primeiro no próprio AMS2 e depois aprovaram o comportamento desta versão quando testaram os modelos reais alguns dias depois do lançamento do jogo... sim... fucking magic... bem vindos ao mundo da Reiza! Os caras geralmente fazem coisas nesse nível), como também podemos andar com o carro de F1 da Red Bull de 2009 (não licenciado, mas maravilhosamente bem modelado... com uma pintura alternativa) nas ruas de Mônaco. Ou pode pegar o Formula Truck e andar no kartódromo. O jogo não liga, só te dá opções e deixa que vc as use como bem entender.



Porém existe algo muito importante a se dizer sobre simulação versus quantidade/variedade de carros e pistas: Quase sempre não funciona bem junto. Digo, em iRacing e RaceRoom Racing Experience e no próprio Automobilista 1, existe uma homogeneidade, coesão e padrão de qualidade no conteúdo simulado, mas em praticamente todos os outros a qualidade diminui abruptamente conforme se coloca mais coisa neles e isso inclui, especialmente, séries como Forza Motorsport, Gran Turismo e Project Cars.

Falando em Project Cars, é bom jogar aqui luz a uma grande polêmica. Automobilista 2 é feito com a Madness Engine, que foi desenvolvida pela Slight Mad Studios e usada em todos os seus jogos, do primeiro NFS Shift até o vindouro Project Cars 3. Por isso a comunidade de simulação (especialmente os fãs do primeiro AMS) ficaram muito receosos de que AMS2 viesse a ser apenas “PCARS2 com conteúdo diferente”. É muito importante dizer que uma engine não determina como um jogo se comporta, caso contrário Assetto Corza Competizione seria um FPS, não um simulador de corrida. Claro, muitas coisas em AMS2 funcionam de maneira muito parecida com PCARS2, como a qualidade gráfica as mudanças de horário, condição meteorológica e da superfície da pista, porém ambos são tão diferentes em todo o resto que nem dá pra comparar.

Aliás, PCARS 1 e 2 conseguem entregar grandes momentos, dependendo da escolha de pista/carro, mas todos os seus problemas derivam de seu processo de produção. Ao contrário da Reiza, que possui um time pequeno e que toda parte de modelagem física passa pelas mãos dos mesmos funcionários que gastam muito tempo para fazer todo o trabalho, a SMStudios contrata um time enorme de pessoas para dividir entre elas o conteúdo e entregar seu jogo mais rápido. Sem contar que para a Reiza, a verossimilidade de seu conteúdo é a coisa mais importante em seus jogos, além do fato de que eles entendem muito mais sobre carros de corrida do que quase qualquer outra equipe no ramo, enquanto que estúdios como a SMS, Turn 10 e Polyphony Digital têm como prioridade fazer que seus carros sejam o mais brilhantes e belos possível, pois é o que seus públicos priorizam.

Falando na Madness Engine, uma das maiores críticas existentes a AMS1 era dele rodar no jurássico isiMotor2 (de 2004) e a “rusticidade” de seus gráficos (além de várias outras limitações daquele jogo causada por sua engine). Para AMS2 a Reiza contou com três engines: A citada ME, que cuida da física, gráficos e interface, da LiveTrack (também usada em PCARS2) que faz com que a superfície da pista tenha mudanças de temperatura, detritos e “emborrachamento” conforme muda a exposição da mesma às mudanças meteorológicas, de horário (mais luz solar ou menos) e pela própria ação dos carros ao longo da corrida e do FMOD, que serve para usar os modelos 3D para gerar ambiência nos sons do jogo.



Pessoalmente não sou fã de chuva em jogos, pois este é o único fator que ainda não temos hardware para fazer uma simulação minimamente decente, e aqui não é diferente. Se quiser entender o quanto isso é complicado, pergunte a um amigo engenheiro (caso você não seja um) sobre suas lembranças das aulas de Mecânica de Fluídos que ele teve na faculdade. O ponto é que mesmo que ainda seja algo muito tosco os jogos conseguem se dividir entre aqueles que fazem pistas molhadas serem algo burocrático (como Gran Turismo), ou aqueles que mesmo com as limitações físicas entregam algo divertido (como Forza Motorsport), que é exatamente o caso de AMS2. Seu carro não terá reações arbitrárias ou aleatórias, além de ser até agora o simulador que chegou o mais perto (mesmo que ainda muito longe) de reproduzir pilotagem na chuva (no caso, em diferentes estados de pista molhada, pois **** toda uma transição caso a corrida comece numa pista mais seca e a chuva aumente e vice versa).

E é exatamente neste ponto em que chegamos ao ápice de AMS2, que é sua dirigibilidade. Existe uma visão errada na comunidade de simulação de que “realismo = dificuldade”, mas na prática a coisa é totalmente diferente. Carros de corrida reais são muito mais fáceis de guiar do que os de rua. Eles possuem um centro de gravidade mais baixo, pneus enormes e com muita aderência, muitas vezes pressão aerodinâmica além de assentos e controles totalmente ergonómicos e com resposta muito mais direta. Dirigir um carro de corrida é relativamente fácil. Pilotar rápido também não é nenhum grande desafio, pois eles geralmente se comportam até melhor em certa velocidade. O desafio é você ser mais rápido do que os outros e é disso que se trata. Neste ponto, AMS2 é muito provavelmente o melhor simulador já feito. Em uma analogia despretensiosa, imagine se Dark Souls fosse um simulador de corrida no sentido de que conseguimos levar a jogabilidade a certos extremos (no caso de DS é a própria dificuldade do jogo), mas quando alguma coisa der errado dificilmente achamos que a culpa foi do jogo apelar e será até fácil de entender que fomos nós que erramos. AMS2 tem uma resposta no “pós-limite” que é até difícil descrever, mas parece que não existe um ponto arbitrário onde o carro perde totalmente o controle (apesar disso acontecer frequentemente quando buscamos seus limites) e ainda temos algum controle em todos os momentos, até quando as quatro rodas estão fritas e já parecendo feitas de sabonete. Mas é exatamente o que se espera de um carro real, e em AMS2 isso funciona melhor e de maneira mais verossímil do que em qualquer outro simulador.



Porém nem tudo são flores. A Reiza, como eu disse no começo da análise, prometeu muito para este jogo. Eles prometeram que com o jogo sairia um modo single player de campeonato, que mesmo que eles digam que “ainda está em desenvolvimento” o entregue é algo tosco e muito abaixo do que se espera de um título em versão 1.0. Consegue ser pior do que o modo campeonato de ACC (que critiquei muito em minha análise daquele título). Também foi prometido um sistema de ranking para o online a ser entregue nas semanas após o lançamento. O netcode por hora é muito bom e eles estão no prazo, mas já é um jogo 1.0 com um sistema de online totalmente primitivo. E também ninguém sabe exatamente o que eles querem dizer com “sistema de ranking”. Pode ser praticamente qualquer coisa, do luxo ao lixo. Uma grande revolução, imensa decepção e infinitas coisas entre isso. Por fim prometeram para o final de 2020 o lançamento de um DLC gratuito de um modo carreira. E é aqui que vale uma atenção. As palavras deles foram exatamente: “será um jogo novo dentro do jogo”. Isso pode ser véco de desenvolvedor (o que a Reiza nunca fez, mas é comum na indústria e sempre pode ter a primeira vez, então...). Pode ser total falta de noção deles, pois os caras são os mais competentes em criação de conteúdo, mas nunca realmente testados como game designers. Ou pode ser que realmente entregarão um modo carreira que seja essa pika toda ou pelo menos bom o bastante. Ao menos a IA do jogo já é excelente. Não tão boa quanto a do primeiro AMS, mas ela te entregará o desafio que desejar (existe uma barra de habilidade para a IA, além de outra para a agressividade da mesma. Totalmente ao gosto do cliente). A IA ainda apresenta alguns problemas, porém logo nos três meses entre o lançamento do Acesso Antecipado no Steam e quando escrevo esta análise (08/07/2020), houve uma evolução muito grande, de uma IA psicopata e desajeitada para uma que tem total noção do que acontece à sua volta e que irá realmente correr contra você e outros carros de forma bem realista. Falta muito pouco para esta IA ser a melhor do mercado, mas ainda falta.



Outra coisa que ajuda tanto off-line quanto online é a física de colisão. É algo simples, mas muda muito as coisas. Em AMS2, além do sistema de danos (que é excelente) os veículos todos possuem a respectiva elasticidade em suas estruturas que se espera de um veículo real. Claro, ainda não chega perto de um BeamNG.drive, mas quando um carro encosta no outro não existirá nem aquele campo de força mágico dos Gran Turismo que permitem que eles corram um empurrando o outro e nem aquela física de caixa de madeira do primeiro Assetto Corsa, que fazia um carro quicar no outro, transformando qualquer toque leve em um acidente grave (o que, combinado com a IA horrível daquele jogo, ainda hoje, depois de bilhões de updates, faz com que corridas contra sua IA variem apenas entre o chato e o frustrante... mas nunca em AMS2!).

De qualquer maneira, AMS2 é um jogo que já entrega muito mais do que qualquer outro simulador conseguiu fazer em sua versão 1.0 ou até nos primeiros anos após lançado. iRacing, pelos padrões de sua época, foi o único outro simulador que na versão 1.0 chegou perto de AMS2, mas não tinha IA, contava com muito menos conteúdo (apesar de que tudo colocado até hoje em iR tenha um certo padrão de qualidade bem aceitável, mas nada que chegue ao nível do que AMS2 está fazendo, mesmo hoje, após 12 anos de seu lançamento), não possuía mudanças de horário, meteorológicas ou sequer na condição da pista e era só um excelente online com netcode que muito teve que evoluir e um bom ranking e matchmaking... que custavam na época mais caro do que meu PC, caso vc quisesse comprar todo o conteúdo disponível e mesmo se comprasse tudo o AMS2 ainda tem mais coisa. rFactor 2 tem ai 10 anos e precisou de 8 só pra ficar jogável (e não contem pra ninguém, mas o melhor conteúdo já lançado para ele foi exatamente um DLC feito pela Reiza). ACC até hoje é pessimamente optimizado, limitado a apenas uma categoria (com uma segunda bem parecida com a primeira vindo) e com as mesmas limitações na qualidade de seus modos online/off-line. AC original precisou de quatro anos para sequer virar um jogo decente e 99% de suas virtudes vieram de mods lançados nos últimos seis anos. Bom, vocês pegaram a ideia. AMS2 é um jogo que evolui muito rápido, feito por uma empresa com fama de muito produtiva, que dá suporte de longo prazo (quatro anos pelo menos, e eles prometeram que AMS2 é um projeto de longo prazo) e já está num nível que mesmo que fique atrás em um ou outro aspecto quando comparado pontualmente com seus rivais, ainda faz bonito.



CONCLUSÃO

O mais importante de um jogo é ter o que fazer nele. Se sua prioridade é um modo campanha nos padrões da franquia F1 da Codemasters (em especial o 2020, que está maravilhoso nisso) ou dos NASCAR Heat (e do Dirt to Daytona, ainda imbatível) eu aconselho que espere pelo prometido modo campanha. Se você gosta de fazer corridas aleatórias contra a IA, ficar dando voltas sozinho pra se aprimorar ou gosta de desafios de volta rápida contra o resto do mundo, o jogo já está pronto e já é o melhor pra isso tudo. Se gosta de online entrando em salas aleatórias ou é daqueles que curtem participar de ligas online (já existem várias, só googlar) então o jogo te atenderá. Caso faça questão de um sistema multiplayer como o de iRacing ou do mod SRS de AC, também é melhor esperar pelo lançamento do sistema de rankings.

Também, AMS2 é o único jogo em que você encontra uma grande quantidade de autódromos brasileiros além de carros nacionais. É possivelmente o jogo com melhor conteúdo de Formula 1 caso você não ligue pra licenças (apesar de que o jogo já conta com algum conteúdo licenciado e promete muito mais, e que o não licenciado é melhor do que tudo já licenciado em outros jogos). É um jogo que possui uma grande quantidade de versões antigas de algumas das pistas presentes no jogo (como Interlagos, Imola, Melborne, Suzuka e Kyalami, dentre outras já presentes ou que já estão agendadas, como Hockenhing, Silverstone, Spa e várias outras). É o único jogo com uma gama tão grande de tipos diferentes de veículos (e que aumentará, inclusive com um DLC dedicado a corrida offroad) e que todos têm uma elevada qualidade de verossimilidade e também de detalhamentos visuais.



Vale dizer que AMS2 também é o simulador que conta com o melhor suporte a VR no mercado. A Reiza acertou muito na mão e, ao contrário da Kunos, entregou um jogo muito bem optimizado que roda leve até em maquinas mais antigas (aliás, não é muito mais pesado do que AMS1, pasmem) e, consequentemente, não exige tanto para rodar em múltiplos monitores ou até em VR, sendo o jogo que fica mais bonito nesse tipo de dispositivo. E isso é optimização, pois as pistas que existem tanto em AMS2 quanto em ACC costumam ser mais belas e detalhadas no jogo da Reiza, apesar de que o jogo da Kunos é um pouco melhor em fotorrealismo (desde que seu PC seja da NASA... sim, aquele que nunca rodaria um Crysis 4 caso este hipotético jogo fosse lançado hoje e continuasse a tradição de sua franquia rs).

Automobilista 2 é um jogo que promete muito, mesmo que um pouco atrás do seu cronograma. Ele já é um dos melhores jogos de corrida de todos os tempos, mesmo que simuladores devam ser analisados ao longo dos anos após seus lançamento e não em suas versões 1.0, afinal são pensados para evoluírem com o tempo e te prenderem por anos, não para simplesmente os jogadores “fazerem fim” como jogos arcade ou simcade. Por tudo que já foi entregue, pelo ritmo em que foi, por tudo prometido e, principalmente, pela moral que a Reiza tem no mundo inteiro, eu recomendo que você dê uma chance para este simulador não importando se é iniciante ou veterano ou se jogará no volante (e seja lá qual volante for) ou no gamepad (que funciona muito bem e lhe divertirá, apesar de não ser o ideal, pois você perderá um dos melhores force-feedback já feitos). É um jogo que é perfeito tanto para aprender do zero como se pilota, para desenvolver sua técnica e também desafiará os mais veteranos.

PS: Todas as imagens acima são conteúdo oficial de divulgação ou de minha autoria. Nenhuma das imagens postadas aqui é bullshot e reproduzem com fidelidade as imagens reais do jogo. Mais algumas imagens e vídeos:


Por nandritz99, fórum RaceDepartment


Por sebb, fórum RaceDepartment


Por Cheesenium, fórum RaceDepartment


Por M-Bimmer, fórum RaceDepartment

Gabriel Casagrande testando o carro dele no jogo e dando opiniões. Ainda era uma versão primitiva do jogo que melhorou muito em todos os aspectos.

Uma palhinha do VR