Duas Sentenças, Uma Morte

Dados da Imagem
O Presidente Bolsonaro e o "tenebroso" leite condensado, a mais nova "polêmica" da mídia tradicional (Antonio Cruz / Agência Brasil).

Duas sentenças, uma morte​


Atire a primeira pedra quem nunca se lambuzou com leite condensado!

A narrativa da semana foi a incrível capacidade da Presidência da República em consumir mais de 35 milhões de reais em compras fúteis como leite condensado, chicletes e biscoitos.

Em meio a denúncias de sumiços de vacinas de COVID-19 em vários estados da Federação, do aumento exponencial de mortes e o aparecimento da nova cepa da pandemia no Amazonas, do desmonte de hospitais de campanha e do aumento de quase 100% no ICMS de São Paulo, que impactará no custo de vida de todos os brasileiros, a imprensa preferiu explorar, orquestradamente, o escândalo do “pudim”.

Agora sim! seriam apresentadas as provas da corrupção do governo Bolsonaro.

As manchetes dos principais jornais, as mensagens e posts dos grupos de mensageiros e de redes sociais, tais como Telegram, Facebook, Twitter, Signal, WhatsApp e outros, foram invadidas tsunamicamente pelas adocicadas informações do jornalista investigativo que descobriu aquela terrível prova de corrupção no Portal da Transparência do Governo Federal.

Opa....será que existe possibilidade de investigação séria em uma ferramenta cuja premissa é total transparência? Seria o governo burro a ponto de publicar seus crimes administrativos? Não seria lógico escondê-los? fica a reflexão....

Então, diante de tal sandice, como impedir que a exploração daquela narrativa fosse usada como “cortina de fumaça”, no intuito de encobrir os verdadeiros escândalos de corrupção estadual na área de saúde e aumentos absurdos e injustificáveis de impostos em tempos de calamidade pública?

Como estimular a cobrança das soluções que efetivamente salvem vidas e desenvolvam a economia do País, aos governadores de estado e prefeitos?

Na quarta, o presidente, em uma reunião pública com integrantes do poder Legislativo e repórteres soltou um desabafo em forma de duas simples sentenças, um sonoro “puta que pariu” e um “enfiem no rabo de vocês (jornalistas) o leite condensado”.

Com estas duas sentenças, o Presidente matou a narrativa. Como?

A intenção dos idealizadores do escândalo do “pudim”, como bons especialistas em causar terror e discórdia, era, claramente, a de associar as compras do governo federal a superfaturamento e corrupção administrativa.

Para tanto, eles realizaram uma interpretação equivocada dos dados do portal da transparência, para fazer parecer que todas as compras do poder executivo tivessem sido adquiridas e pagas pela Presidência da República. Como 15 milhões de reais, em leite condensado, não é uma cifra crível no sentido de “lisura” de intenção e processo, eles passariam ao próximo passo.

Este próximo passo já estava sendo desenhado, quando houve a intervenção certeira do chefe do executivo. Eles, provavelmente, já haviam preparado uma série de notícias que levariam o grande público a duvidar da compra do “leite condensado”, e isso sugestionaria que o governo estava sendo corrupto, comprando um item e na verdade desviando o recurso ou recebendo um outro diverso.

Todavia, com um “puta que pariu” e um “enfia no rabo”, o presidente mudou o foco das notícias para ele, fazendo todos prestarem atenção no que ele estava dizendo.

Foi uma utilização primorosa da programação neurolinguística, ao causar tamanha dissonância cognitiva e fazer, seus adversários, apontarem suas armas para a “falta de postura da autoridade”, dando tempo (de mídia) ao governo, para desconstruir, com os argumentos necessários, a narrativa de “governo corrupto”.

Todo o Brasil ficou esperando uma “explicação” para tamanha revolta do chefe do executivo, ou seja, todos estariam 100% conectados na palavra oficial de resposta do governo. Um gol de placa de contrapropaganda.

Em uma entrevista, na Jovem Pan, com o Ministro da Controladoria Geral da União, as compras do governo foram detalhadas. Apresentou-se que as compras de “leite condensado” foram realizadas por mais de 1500 autarquias, instituições escolares, de saúde e militares e que o valor real das compras não passava de 3 milhões de reais, e que a média de compra seria de uma lata de leite condensado para cada 10. Os militares ou servidor público, por mês, ou seja, uma sobremesa de pudim mensal, enquanto que os demais 12 milhões de reais foram, na verdade, utilizados para a aquisição das centenas de outros itens constantes na nota de empenho.

Foi demonstrada, a meu ver, a falta de caráter ou a burrice, ou os dois, do jornalista “investigativo” que não soube interpretar os dados matemáticos e estatísticos do portal da transparência e da central de compras do executivo. Típica ação da geração Paulo Freire de qualidade educacional.

O que uma autoridade diz, sejam palavras doces, ásperas ou inusitadas, nunca será mais importante do que aquilo que as pessoas acreditam que ele está pensando ou de como elas acreditam ser o seu procedimento. Se o povo acredita na honestidade de alguém, este alguém sempre será, a princípio, honesto.

Mais uma narrativa para sugerir a corrupção do governo atual, há mais de 700 dias sem escândalos do gênero, morreu por consequência de duas pequenas sentenças.
Sobre o(a) Autor(a):
Clynson Oliveira
Clynson Oliveira é PhD em Ciências Militares com ênfase em Política e Estratégia pela Escola de Comando e Estado-maior do Exército e coronel R1 do Exército Brasileiro. Por mais de 15 anos atuou na área de marketing de guerra do Exército Brasileiro, sendo especialista em operações psicológicas, direito internacional humanitário, emprego constitucional das Forças Armadas e operações multinacionais, interagẽncias e de paz. Comandou unidades militares no interior da Amazônia brasileira, residiu por mais de 2 anos em todas as regiões do País e participou de atividades militares em mais de 11 países, entre eles Haiti, EUA e Índia, tendo reunido profundos conhecimentos da problemática política, econômica, social, tecnológica e militar, interna e externa, do Brasil, ao longo de mais de 28 anos de serviço militar. Formado em Gerenciamento de Projetos pela FGV, após uma experiência de mais de 6 anos em projetos estratégicos (projeto PROTEGER), e de ter sido CEO da Boston International Sales, fundou a Líder Ação consultoria & treinamentos. É casado, pai de três filhos, dois cachorros e avô de um neto. É também um colaborador do POLITZ.

Comentários

Não há comentários para mostrar.

Informações da Publicação

Autor(a)
Clynson Oliveira
Visual.
687
Última atualização

Mais em Colunistas

Mais de Clynson Oliveira

Compartilhar

Top Bottom