Vivemos tempos esquizofrênicos. Assim, com o advento da COVID, vimos os apóstolos da “sociedade aberta” e da ideologia no border transformarem-se, com uma impressionante facilidade, em fanáticos dos lockdowns e zelosos informantes: aqueles que até ontem cantavam o louvor do desenraizamento e da abolição das fronteiras converteram-se ao culto do apartheid sanitário, a ponto de esperar uma espécie de morte civil para aqueles que recusarem a vacina.

Da mesma forma, não é de se surpreender que a sexofobia esteja ocupando o lugar da sexomania, que sempre foi uma das figuras características da sociedade liberal-progressista nascida em 1968. E se a chamada liberação sexual, em última análise, representou nada mais que a transposição física da liberdade mercantil, uma espécie de internalização da lógica comercial — os corpos devem ser nus e expostos, assim como os bens devem estar claramente visíveis e disponíveis para o consumidor — foi vivida no início como uma ruptura radical de um modelo de sociedade julgado como repressor dos impulsos sexuais.

A cruzada do neopuritanismo

Mas na era do MeToo e da “masculinidade tóxica”, aquele moralismo beguino que parecia ter sido arquivado para sempre está de volta à moda. Portanto, as declarações que Keira Knightley fez em uma entrevista recente, durante a qual a atriz britânica afirmou arrepender-se de ter filmado cenas de sexo sob olhares e “grunhidos” de homens no passado, não podem ser surpreendentes, e em sua opinião tais cenas só poderiam ser toleráveis caso uma mulher tivesse sido a diretora. Além disso, afirmações semelhantes são amplamente aceitas mesmo fora do ilustre mundo das estrelas e dos influenciadores de Hollywood, e estamos testemunhando ultimamente uma espécie de cruzada neopuritana e androfóbica que enxerga no contato físico e no sexo um mal a ser erradicado, uma violência perpetrada contra as mulheres, a tal ponto que até o mais inocente ato de cortejo dos homens é equiparado a um verdadeiro assédio.

Uma onda de intolerância

É claro que as medidas de distanciamento e semi-carcerárias impostas à população há quase um ano apenas alimentam essa onda de fanatismo, e são frequentes as palestras dos diversos Crisanti e Pregliasco[*] que convidam os cidadãos a se absterem de relações sexuais para minimizar o risco de contágio, repletas de endossos às práticas autoeróticas. Por outro lado, não há dúvida de que alguns dos fenômenos culturais mais influentes de nosso tempo, desde o trans-humanismo ao cyber-feminismo, são impelidos por um ódio visceral ao corpo e seus limites; um ódio por trás dos slogans aparentemente libertários de emancipação e igualdade, esconde, na verdade, uma feroz antropofobia, que visa a abolição da natureza e das diferenças anatômicas e biológicas entre os indivíduos. Trata-se de uma concepção desencarnada e pós-biológica da liberdade, assim como do corpo humano, como se para ser livre o homem fosse obrigado a negar a sua própria corporeidade com suas as imperfeições relativas.

Em tudo isso, pode-se ver uma forma de neocatarianismo: os cátaros, de fato, na sucessão dos maniqueus, concebiam o corpo como uma prisão da alma e enxergavam na matéria a origem de todo mal. Essa visão do corpo humano como algo impuro e imperfeito é a mesma que encontramos entre as vanguardas progressistas, que vêem a tecnologia como um meio de “libertar” o homem dos seus limites, sobretudo das doenças, da velhice e da morte. Essas concepções são basicamente apenas um dos muitos sinais do que René Guénon chamou de volatilização do mundo e digitalização da sociedade — ao som do trabalho inteligente, do ensino à distância, da abolição do dinheiro e do advento do e-commerce —, que estão criando um mundo cada vez menos material, onde corpos e objetos parecem colapsar e se dissolver em uma poeira fina.

O pesadelo de um mundo pós-humano

O próprio capitalismo não escapa desse processo, e a financeirização da economia possui o mesmo significado: se até poucas décadas atrás o principal método de acumulação de capital centrava-se em atividades concretas — como a produção de bens e a exploração do trabalho —, em nossos dias, a acumulação, pelo contrário, assenta-se em bases absolutamente fictícias e imateriais. A economia financeira há muito suplantou a economia real e baseia-se em uma riqueza totalmente volátil e hipotética, fundamentada da forma que se encontra na antecipação de um valor que ainda não existe. Pode-se dizer que o materialismo em sua fúria de solidificação acabou por erodir-se, e de fato hoje vivemos um mundo literalmente fantasmagórico, onde tudo se dissolve, se dilui, se desencarna.

Um mundo inteiramente virtual, que representa o sonho de quem considera o homem algo obsoleto e antiquado, algo que precisa ser manipulado e aperfeiçoado; um sonho (ou melhor, um pesadelo), porém, cultivado em tempos acima de quaisquer suspeitas, uma vez que já no final da década de 1970 a feminista americana Ti-Grace Atkinson escreveu: “o ato sexual não deve mais ser o meio utilizado pela sociedade para renovar a população”. E pesquisas sobre úteros artificiais, fertilização in vitro, “mind uploading” e outras maravilhas do tecnocapitalismo, permitem-nos criar um modelo de sociedade em que já não haja lugar para o homem como o conhecemos. Em última análise, um sonho de morte, e que corre o risco de mergulhar o mundo inteiro em um incurável colapso dissolvente.


[*] Especialistas italianos da COVID.
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