Desde a década de 1970, o comércio internacional tem sido continuamente promovido por líderes de países desenvolvidos e agentes econômicos.

Vários arcabouços teóricos já foram admoestados para explicar os benefícios de um ambiente de livre comércio, desde o conceito das vantagens absolutas de Adam Smith até as variações mais recentes da teoria da firma. Entretanto, a realidade é muito mais repleta de nuances do que se imagina, especialmente após a entrada da China na Organização Mundial do Comércio em 2001, e questões surgem quanto à sustentabilidade do modelo atual.

Embora o desenvolvimento da atividade do livre comércio possa ser considerado como uma sólida vitória intelectual do capitalismo ocidental, tal tendência tem paradoxalmente enfraquecido vários países da Europa e os EUA.

O primeiro efeito colateral do globalismo econômico no Ocidente tem sido o recuo da produção industrial em várias economias como os EUA, trazendo consigo questões de desemprego permanente como consequências. Para além dos impactos sociais, o canadense Vaclav Smil defende que um declínio da produção industrial é estruturalmente problemático, uma vez que afeta a capacidade de inovação de um país a longo prazo¹.

A segunda razão para ser cético em relação ao comércio internacional é a multiplicação de desequilíbrios estruturais na economia global, como excedentes e déficits insustentáveis em todos os lugares. Uma economia com um déficit comercial crescente empobrece em relação às economias estrangeiras, o que o levaria a submeter-se a uma crise financeira e/ou social no final. Para compreender isto, é necessário imaginar um país cuja moeda seja lastreada em algo tangível (o ouro, por exemplo). Nesse caso, um déficit significa que o país possui uma dívida em metais para com o resto do mundo. É claro que os déficits da conta corrente podem ser compensados por influxos financeiras, mas como não há um almoço grátis em matéria de economia, isto não deve ser visto como uma solução a longo prazo.

Finalmente, mas não menos importante, a ascensão do comércio global e da especialização dos países levou a um sistema repleto de fricções e altamente vulnerável a choques (independentemente das suas dimensões). Isto tem sido bem documentado e explicado pela pesquisa em sistemas complexos, incluindo a econofísica. Poderia-se imaginar uma catástrofe natural local interrompendo a cadeia de suprimentos global da indústria automobilística (o terremoto e o tsunami no Japão em 2011, por exemplo), um pequeno incidente de navegação travando o fluxo de uma grande parte do comércio marítimo (a obstrução do Canal de Suez em 2021, por exemplo), ou até mesmo um pequeno agente patogênico congelando a economia global por vários meses (a pandemia da COVID-19, por exemplo).

Em outras palavras, um problema que afeta fábricas locais em algumas regiões da Ásia ou sítios de mineração no Chile é suscetível de causar impacto sobre a maioria das economias do mundo. Em outras palavras, quanto mais especializados os países em termos de produção econômica são, mais dependentes da produção estrangeira eles se tornam, e mais vulneráveis a acontecimentos distantes eles serão.

O Cisne Negro da Guerra Comercial

Dito tudo isto, imagine o que aconteceria se as tensões entre os EUA e a China continuarem a aumentar e se a economia global dividir-se gradativamente em dois mercados diferentes. Embora a América tenha se tornado mais protecionista desde a eleição de Trump em 2016, a China já deixou claro que irá implementar uma política econômica resumida sob o slogan do “Feito na China para a China” para os próximos anos (e também décadas), uma vez que a independência econômica tornou-se uma das principais metas de Xi Jinping.

Não faço ideia do quão bem os agentes econômicos ocidentais estão preparados para um cenário do tipo, uma vez que a maioria das pessoas demonstra um comportamento semelhante ao processo gaussiano e sempre aposta em um retorno à normalidade. Mas as consequências de uma mudança estrutural na atividade comercial global podem ser significativas para o resto do mundo, especialmente para os importadores líquidos que dependem bastante dos produtores estrangeiros por causa de materiais ou componentes tecnológicos elementares.

As pessoas podem argumentar que o mundo está ficando cada vez mais interligado e que uma rede econômica de larga escala é suscetível de continuar a expandir-se a longo prazo. Isto é correto sob a perspectiva de uma linha do tempo longa e contínua, mas pode provar-se errado ainda no decorrer das nossas próprias vidas.

A partir dessa perspectiva, lições interessantes podem ser aprendidas com a decadência do Império Romano Ocidental.

A Queda de Roma

Ao estudar o período de transição do Império Romano para a Idade Média (também conhecida como Antiguidade Tardia), o arqueólogo britânico Bryan Ward-Perkins sustenta que “a queda de Roma” foi um período de decadência brutal no decorrer dos séculos V e VI².

Mais interessante do que isso, Ward-Perkins defende que antes do século V, uma grande e complexa rede comercial havia surgido no Império Ocidental, resultando em uma forte atividade econômica na maioria das províncias e em um elevado nível de tecnologia no que diz respeito à Idade Média. A título de exemplificação, regiões especializavam-se na produção de armas para as legiões, outras em certos tipos de olaria, etc.

Ward-Perkins observou que, após décadas de chamadas “invasões bárbaras”, a atividade econômica passou a mostrar sérios sinais de declínio no Império, conforme evidenciado pelo colapso de bens manufaturados como as cerâmicas ou materiais de construção “de alta gama”. Além disso, escavações arqueológicas também levaram à conclusão de que a utilização de moedas diminuiu significativamente durante esse período.

A partir do momento em que cada região tornou-se dependente das outras, as fundações econômicas do Império Ocidental tornaram-se vulneráveis a qualquer acontecimento disruptivo. E isto foi o que aconteceu no decorrer de dois séculos. É interessante observar que no mesmo período, o Império Bizantino vivenciava um momento de paz relativa e expansão econômica, conforme evidenciado por descobertas arqueológicas.

Como a economia do Ocidente foi atingida por vários choques, o Império Romano foi arrebatado por um círculo vicioso, o que significa que guerras e derrotas que resultaram em atividades relacionadas às cadeias de suprimento enfraquecidas em algumas regiões, que, por sua vez, tiveram como consequências problemas econômicos por todas as partes, questões orçamentais, menos transferências para as legiões, desordem social, e assim mais derrotas militares, e daí por diante.

O exemplo do Império Romano Ocidental é espantoso, uma vez que o seu colapso também levou a um sério declínio em termos de tecnologia. Assim, a questão é saber se trata-se de um indicador relevante para o atual império capitalista ocidental.

Ninguém sabe ao certo, mas conforme Ward-Perkins escreveu em 2005: “Os romanos antes da queda estavam tão certos quanto nós estamos hoje de que o seu mundo continuaria substancialmente inalterado para sempre. Eles estavam errados. Seria sensato da nossa parte não repetir a complacência deles”.


Referências:
¹
Smil, V. (2013) Made in the USA: The Rise and Retreat of American Manufacturing. MIT Press.
² Ward-Perkins, B. (2005) The Fall of Rome and the End of Civilization. Oxford University Press.
Fontes das Informações