Por Jim Aristopoulos, antropólogo social e historiador.

Do dia 27 de setembro a 10 de novembro de 2020 houve uma guerra entre o Azerbaijão e a Armênia, em razão de uma disputa pelo território de Artsakh, que recebeu atenção de toda a comunidade internacional. Não apenas testemunhamos o grande apoio da Turquia e do Presidente Recep Tayyip Erdoğan ao Presidente do Azerbaijão Ilham Aliyev nos esforços de guerra, como ao mesmo tempo outros membros do Conselho Túquico, contemplando o Cazaquistão, Quirguistão e o Uzbequistão, e a Hungria na posição de estado observador, declararam seu apoio à causa azeri. Estas se tratam de manifestações evidentes da ideologia panturquista, que é fortemente prevalecente nestes países.

1) O que é o panturquismo?

Panturquismo é uma ideologia nacionalista nascida no século XIX, especificamente entre os povos falantes de idiomas túrquicos que viviam na Rússia czarista durante a década de 1880, e que teve seu desdobramento na Ásia Menor. Sem jamais ter se estabelecido como a ideologia oficial do estado turco, ela sempre foi apoiada por Ancara, independente deles terem admitido isto ou não.

A base da ideologia panturquista é a emancipação, visando a união pela independência de todos os povos falantes de línguas túrquicas, tais como aqueles que se encontram na Crimeia, no Azerbaijão, no Cáucaso, Turcomenistão, Uzbequistão, Quirguistão, Sibéria, Afeganistão, Irã, Iraque, Síria, Bulgária, Iugoslávia, Trácia Ocidental, Chipre e qualquer outro lugar onde há a presença da “Mãe Turquia”, para que se crie um imenso estado túrquico abrangendo uma população de mais de 100 milhões de habitantes.

Slogans típicos usados pelos panturquistas são os seguintes:
  • “Onde quer que haja turcos há uma Turquia.”
  • “O mundo dos turcos é um único todo.”
  • “Todos os turcos constituem um único exército.”
  • “O panturquismo enquanto ideal é um alimento moral para a nação.”
  • “O Chipre é tão turco quanto a Ásia Menor e a Trácia Ocidental.”

2) Quais são as diferenças entre a ideologia neo-otomanista e a panturquista?

O otomanismo trata-se, na verdade, mais de um movimento político etno-religioso do que de um movimento etno-racial. Os otomanistas proclamam a fé na santidade e na perpetuidade do Império Otomano e do seu Sultão, na busca pela ideia de um “império” para substituir o nacionalismo e a ordem política das nações-estados nas quais eles vivem. Embora eles reconheçam abertamente a existência de diferentes etnicidades entre eles, eles acreditam que diferenças culturais e locais devem ser deixadas para trás quando se trata de unificação político-religiosa.

No panturquismo, por outro lado, o foco não reside tanto na religião, e, em vez disso, preocupa-se com a tradição étnica dos povos e das nações. Busca a unificação, política e culturalmente, por meio de uma nação-estado turca “maior”, uma vez que todos eles compartilham uma tradição túrquica comum. O panturquismo normalmente está associado a países que possuem um “legado cultural túrquico” e um idioma túrquico oficial. Países/regiões que podem ser incluídos nessa lista seriam a Crimeia, o Azerbaijão, o Cáucaso, o Turquestão, Xinjiang no oeste da China, Quirguistão, Tatarstão, Sibéria, Afeganistão, Irã, Iraque, Síria, Bulgária, Chipre e áreas do norte da Grécia e as ilhas ao leste.

3) Como a ideologia panturquista se aplica à geopolítica dos dias de hoje?

O panturquismo sempre foi a base ideológica para o funcionamento político da Turquia. Tratava-se do fundamento ideológico sobre o qual a ideologia política kemalista se baseou para que se construísse uma Turquia maior. O desenraizamento do helenismo na Ásia Menor em 1922, o genocídio armênio em 1915-18, bem como o assírio, a perseguição aos gregos de Constantinopla em 1955, a invasão do Chipre em 1974, foram todos efeitos da doutrina panturquista da política expansionista da Turquia.

No mundo multipolar de hoje, onde o Ocidente já perdeu os seus valores e o Oriente está reivindicando o seu papel histórico de conquistador, enquanto os jogadores tradicionalmente grandes no tabuleiro do xadrez internacional têm de enfrentar os seus próprios problemas internos, Erdoğan coloca a dinâmica do nacionalismo panturquista de modo a criar uma grande aliança de grupos étnicos túrquicos. E a batalha no Cáucaso, numa época em que nenhuma grande potência está do lado dos azeris, é outra oportunidade para se disseminar na região. A intervenção da Turquia na Líbia, bem como na Síria e as suas reivindicações sobre as zonas econômicas da Grécia e do Chipre no leste do Mediterrâneo, também fazem parte da agenda política panturquista, apesar do otomanismo ser utilizado como uma arma ideológica nestes casos.

4) Exemplos de políticas panturquistas na Turquia contemporânea

A despeito do fato da Turquia durante o domínio de Erdoğan ter teoricamente abandonado a retórica panturquista em favor do neo-otomanismo, na prática é ainda a ideologia panturquista que determina a geopolítica turca. Desde o seu apoio à Irmandade Muçulmana e a sua invasão ao norte da Síria, até o seu envolvimento na guerra civil líbia, bem como as ameaças de imigração ilegal novamente à Grécia e à Europa, e a guerra em Artsakh (Nagorno Karabakh), combinada com a perseguição dos curdos, nenhum desses acontecimentos são mais do que partes da agenda da doutrina panturquista na política expansionista da Turquia. Durante o aniversário da morte de Mustafa Kemal Atatürk, em 10 de novembro de 2016, Erdoğan declarou abertamente que “a Turquia é maior do que a Turquia”, ao mesmo tempo em que falou da sua doutrina sobre as “fronteiras do seu coração”, declarando também que “não podemos ficar confinados em 780 mil m². Nossas fronteiras físicas são diferentes das fronteiras do coração. Os nossos irmãos que vivem nas áreas de Mosul, Kirkuk, Humus, Skopje, podem estar para além das fronteiras naturais da Turquia, mas estarão sempre nas fronteiras dos nossos corações”. O plano de apoio aos azeris na Guerra de Artsakh não foi espontâneo, mas parte da doutrina do antigo Ministro das Relações Exteriores que se transformou no rival político de Erdoğan, Ahmet Davutoğlu, que publicou em 2001 um livro intitulado Profundidade Estratégica: A Posição Internacional da Turquia. Neste livro, Davutoğlu diz: “A menos que o Azerbaijão adquira uma posição regional estável e forte no Cáucaso e na Albânia nos Bálcãs, não será possível à Turquia aumentar o seu peso nem desenvolver políticas em relação ao Adriático e ao Mar Cáspio, que se encontram na sua vizinhança imediata e dentro da sua esfera de influência”.
Fontes das Informações