A ruptura da ordem mundial liberal global e dos seus fundamentos

O que acontecendo por agora é uma ruptura global da ordem mundial. Não importa de forma alguma se a natureza do coronavírus é artificial ou não, nem sequer é de principal importância se, caso seja artificial, foi ou não deliberadamente disseminado pelo “governo mundial”. A epidemia já começou — isto é um fato. Agora o mais importante é observar como o “governo mundial” tem reagido a ela.

Para esclarecer tudo desde já, o “governo mundial” é a totalidade das elites políticas e econômicas globais e dos intelectuais e meios de comunicação (midiacratas) que os servem. Um “governo mundial” como tal necessariamente existe, porque há em escala global normas estritamente definidas e fundamentais que determinam os parâmetros básicos da política, da economia e da ideologia.

— Na economia, o único padrão reconhecido é o capitalismo, a economia de mercado (que é contestada apenas pela Coreia do Norte — não, e é muito importante salientar isto, pela China, que apresenta a sua própria versão do capitalismo de estado nacional sob a gestão do Partido Comunista).

— Na política, o único padrão reconhecido é a democracia liberal parlamentar, baseada na sociedade civil como sujeito e fonte de legalidade e legitimidade (com exceção da Coreia do Norte, quase todos estão de acordo com isto, muito embora a China interprete a “sociedade civil” sob uma ótica socialista especial e parcialmente nacional-cultural e realize uma análise midiacrática por outros meios que não as eleições parlamentares diretas; e alguns estados islâmicos — por exemplo, o Irã e as monarquias do Golfo — têm uma série de características especiais).

— Na ideologia, todos concordam com a disposição de que qualquer indivíduo possui uma série de direitos inalienáveis (à vida, à liberdade de consciência, à liberdade de circulação, etc.) que todos os estados e sociedades são obrigados a garantir.

Em essência, são estes os três princípios básicos do mundo global que emergiram após o colapso da URSS e a vitória do Ocidente capitalista na Guerra Fria. Os principais atores da política, da economia e da ideologia estão concentrados nos países ocidentais, que estabeleceram o modelo para os outros. Este é o núcleo do “governo mundial”. Dentro deste governo, a China está começando a desempenhar um papel cada vez mais importante, para cuja direção a elite da Rússia e de todos os outros Estados estão se precipitando.

Não importa se o coronavírus é artificial ou não

Não importa se o coronavírus foi produzido artificialmente e deliberadamente utilizado pelo “governo mundial” neste sentido.

Mas é este mundo, sob a égide de um “governo mundial” como tal com os seus três fundamentos axiomáticos, que está colapsando diante dos nossos próprios olhos. Isto é reminiscente do fim do domínio socialista, do mundo bipolar e da URSS, mas em seguida um dos dois mundos desapareceu, enquanto o outro permaneceu e estendeu suas regras a todos os outros, incluindo os seus opositores de ontem. O próprio Gorbatchov queria participar do “governo mundial” sem dissolver a URSS, mas não fora aceito. Os líderes pró-ocidentais da Federação Russa que se renderam ao Ocidente também não foram aceitos. Ainda não o são. E agora, hoje, este mesmo “governo mundial” está a desmoronar-se. Poderia o mesmo ter optado voluntariamente pela própria liquidação? Dificilmente. Mas reagiu ao coronavírus como se fosse algo inevitável, e esta foi uma escolha.

Houve liberdade para reconhecer ou não o coronavírus como existente. E pelo próprio fato de ter reconhecido a pandemia, o “governo mundial” assinou a sua própria sentença de morte. Ele o fez de forma consciente? Nem mais (ou nem menos) conscientemente do que Gorbatchov na Perestroika. No caso da URSS, um pólo desapareceu, enquanto o outro permaneceu. Hoje, o fim da democracia liberal planetária significa o fim de tudo. Este sistema não tem outro paradigma — exceto para a Coreia do Norte (que continua a ser um puro anacronismo, ainda que de um tipo assaz interessante ) ou para a versão comprometida da China.

Quem deveria ter derrotado o coronavírus e como?


O coronavírus já desferiu um golpe do qual nem a política, nem a economia, nem a ideologia se recuperarão. A pandemia teria de ter sido enfrentada pelas instituições existentes, sob modus operandi normal, sem alterar as regras básicas:

— Nem da política (ou seja, sem quarentena, sem isolamento forçado e muito menos sob estado de emergência);

— Nem da economia (sem trabalho à distância, sem paralisação da produção, transações e instituições financeiras-industriais ou plataformas comerciais, sem férias, etc.);

— Nem da ideologia (sem restrições, embora temporárias, sobre os direitos civis essenciais, à liberdade de circulação, ao cancelamento ou adiamento de eleições, referendos, etc.).

...Mas tudo isto já aconteceu em escala global, inclusive nos países ocidentais, ou seja, no território do próprio “governo mundial”. Os próprios fundamentos do sistema global foram suspensos.

É assim que vemos a situação corrente. Para o “governo mundial” dar um passo dessa magnitude, ele teve de ser forçado a fazê-lo. Por quem? Afinal de contas, não pode haver instância de autoridade superior à humanidade moderna materialista, ateísta e racionalista...

O liberalismo como resultado final da Nova Era

Adiemos esta questão para mais tarde e analisemos agora a maior trajetória histórica do sistema global democrático liberal moderno, isto é, o governo das “elites políticas liberais” (parlamentarismo), os grandes protagonistas econômicos (oligarcas e monopólios transnacionais), os ideólogos da “sociedade aberta” e os jornalistas que os servem (incluindo os moderadores de sentimentos das redes sociais e da internet). A fonte deste sistema deve ser encontrada no final do Renascimento e na “Nova Era” (início da Modernidade) que daí emergiu, que assistiu a uma ruptura fundamental com a Idade Média no que diz respeito à questão do poder e, consequentemente, à sua própria natureza. Na Idade Média e na sociedade da Tradição de modo geral, a legitimidade e legalidade do modelo político de sociedade baseava-se no fator transcendente — suprahumano, divino. O sujeito supremo do poder e da lei era Deus, Suas revelações e as leis e cenários por Ele estabelecidos, bem como aquelas instituições que eram consideradas como suas representantes na Terra: no mundo cristão, estas eram a Igreja e o estado monárquico. A Nova Era da Modernidade aboliu esta estrutura vertical e estabeleceu o objetivo de construir uma sociedade sobre bases terrenas. Sendo assim, o principal assunto e fonte de legitimidade e legalidade tornou-se o homem, e o “governo celestial” — o “governo supramundial” — deu lugar ao “governo terreno”. A política, a economia e a ideologia mudaram em conformidade: emergiu daí a democracia, o capitalismo e a sociedade civil.

Durante vários séculos, estes princípios lutaram contra a ordem antiga (medieval) até que os últimos impérios — o russo, o otomano, o austríaco e o alemão — caíram no século XX. Entretanto, a democracia liberal ainda teria de lidar com versões tão heréticas (do ponto de vista liberal) da Modernidade como o comunismo e o fascismo, que à sua maneira interpretavam a “sociedade civil” e o ser humano como tal: a primeira sob a ótica das classes e a segunda sob termos nacionais ou raciais. Em 1945, os comunistas e os liberais acabaram conjuntamente com o fascismo, e em 1991 os comunistas caíram. Os liberais eram os únicos que restavam e foi dali o “governo mundial” transmutou-se de um plano a quase uma realidade, uma vez que todos os países e sociedades passaram a reconhecer os padrões da democracia, do mercado e dos direitos humanos. Foi isto que Francis Fukuyama quis dizer no seu livro O Fim da História e o Último Homem. A história dessa Nova Era começou quando fora estabelecido o objetivo de substituir o sujeito celestial pelo sujeito terreno, e terminou quando esta substituição fora realizada em escala global.

O fim do mundo liberal e os seus paralelos com o fim da URSS

Hoje, em vez do fim da história, isto é, em vez do triunfo total da democracia liberal, do capitalismo mundial e da ideologia da “sociedade aberta” (direitos do ser humano como indivíduo), caímos de um dia para o outro em condições completamente novas. Isto é tão inesperado quanto foi o fim da URSS. Mesmo depois de 1991, muitas pessoas não conseguiam acreditar que o sistema soviético havia desaparecido, e algumas ainda não podem dar-se conta disso mesmo agora. É claro que o fim do globalismo foi percebido por alguns pensadores críticos: foi falado pelos conservadores, e a aguda ascensão da China, que representa um modelo especial de globalismo, a recusa de Putin em ceder o poder ao manipulável e controlável (como pensou o Ocidente) Medvedev em 2012, e talvez o mais importante, o Brexit e a ascensão do populismo, poderiam ser considerados sinais claros de que, apesar da sua proximidade com o ponto derradeiro, o globalismo não só foi incapaz de alcançar efetivamente o “fim da história”, como está a começar a afastar-se paradoxalmente dele. A nível filosófico, os pós-modernistas começaram a refletir sobre isto, proclamando em voz alta que havia algo de errado com a Modernidade.

Mas a história não há outra alternativa: ou bem atravessa inércia sobre a qual tem permanecido nos últimos séculos, desde a Nova Era e o Iluminismo, ou colapsa. Todos acreditavam que, de alguma forma ou de outra, tudo se resolveria por si só, e que a única coisa que importava era enfrentar eficazmente aqueles que eram categorizados como os “inimigos da sociedade aberta”, ou seja, Putin, o Irã, o fundamentalismo islâmico, ou a nova ascensão dos movimentos nacionalistas reagindo rapidamente à crise da migração em massa. Em geral, ninguém pensou em uma alternativa, mesmo que haja esforço de descartá-la conscientemente. E é por isto que, no momento de uma grave crise, o sistema liberal global malogrou e entrou em colapso. Quase ninguém o compreendeu ainda, mas isto já aconteceu. E aconteceu de forma irrevogável. O coronavírus, pelo sua própria factualidade e sobretudo pela forma como tem suscitado reações por parte do “governo mundial”, tornou-se o fim do mundo moderno.

O fim do "Ego e o seu Próprio"


Isto significa que a humanidade morrerá? Isto ainda é desconhecido, mas não pode ser descartado. Somente se pode adivinhar se irá perecer ou não. Mas o que já pode ser dito com certeza é que a ordem mundial global baseada no capitalismo, na democracia liberal e nos princípios do indivíduo soberano (sociedade civil, a sociedade aberta) já pereceu. Desapareceu, entrou em colapso, embora ainda sejam necessários esforços desesperados para salvá-la durante algum tempo. Não crucial agora saber as formas de eles como serão mobilizados e quanto tempo durarão. Não se pode excluir a hipótese dela desaparecer em sua totalidade como fumaça, assim como o sistema soviético se dissolveu do nada.

Aquilo que apenas um segundo atrás era fugaz, como se nunca tivesse sido. É muito mais importante olhar para o que está por vir em substituição da velha ordem mundial.

O mais importante a compreender é que não fora meramente um fracasso técnico do sistema de governança global que ocorreu, mas sim o elemento final resultante de todo o processo histórico da Modernidade, da Nova Era, durante o qual o poder foi transferido do sujeito celeste para o sujeito terreno, e este sujeito — através das batalhas ideológicas e políticas dos últimos séculos, incluindo as guerras quentes e frias mundiais — avançou em direção a uma certa cristalização, a da democracia parlamentar, do mercado capitalista global e do indivíduo dotado de direitos. Todo o sistema do capitalismo global moderno é construído sobre a premissa do “Ego e o seu Próprio” (Max Stirner). Os direitos políticos do “Ego” (o indivíduo em completo isolamento da nação, raça, religião, sexo, etc.) foram fixados e entrincheirados nos sistemas globais da democracia política. Os direitos econômicos foram incorporados nas normas da propriedade privada e nos mecanismos de mercado. Assim, a fonte do poder político atingiu o seu limite iminente: no liberalismo e no globalismo, os últimos indícios de verticalidade e “transcendência” que tinham sido preservados ainda nas primeiras fases da Modernidade, em particular as estruturas do estado, foram eliminados. Daí a aspiração globalista de abolir a soberania do estado e transferir os seus poderes para o nível supranacional, legalizando assim o “governo mundial”, que de fato já existe. Em outras palavras, a história política, econômica e ideológica da Nova Era caminhou para um fim bastante definido, no qual o sujeito puramente humano, imanente e individual seria finalmente formado e colocado como base para a legitimação política. Pouco fora deixado ao acaso: a abolição total dos estados que se verificou a nível da União Europeia deveria repetir-se em escala global.

O final abortado do liberalismo

Este momento final, para o qual tudo se encaminhava, hoje não é meramente adiado indefinidamente, mas é totalmente anulado. Se a história política não conseguiu chegar a este ponto sem o coronavírus, então todo o processo entrou em colapso em face desta epidemia. A fim de combater eficazmente a epidemia, as autoridades de quase todos os países, incluindo as do Ocidente, introduziram uma quarentena compulsória com medidas rigorosas contra sua violação, ou declararam abertamente situações de emergência. Os mecanismos econômicos do mercado global entraram em colapso devido ao fechamento das fronteiras, assim como o das bolsas de valores e das instituições financeiras. A sociedade aberta e a migração irrestrita entraram em direta contradição com as normas sanitárias básicas. Na verdade, um regime ditatorial foi rapidamente estabelecido em todo o mundo, sob o qual o poder fora transferido para uma entidade completamente nova. Nem o “Ego”, nem o “seu próprio”, nem todas as superestruturas gigantes do mundo que garantiam seus direitos e estatutos legais e legítimos, deixaram de ser considerados como fonte de poder político. Aquilo que Giorgio Agamben se referiu como a “vida nua”, ou seja, o imperativo de sobrevivência física, absolutamente especial, que nada tem a ver com a lógica do capitalismo liberal, deslocou-se para o primeiro plano. Nem a igualdade, nem os direitos, nem o direito, nem a propriedade privada, nem a tomada de decisões colectivas, nem o sistema de obrigações mútuas, nem qualquer outro princípio fundamental da democracia liberal, têm poder real. Somente os mecanismos que contribuem para a sobrevivência, para conter a disseminação da infecção e para prover às necessidades mais simples, puramente fisiológicas, são agora importantes.

No entanto, isto significa que o sujeito do poder está mudando radicalmente. Já não é a sociedade livre, nem o mercado, nem os pressupostos humanistas do indivíduo soberano, nem as garantias de liberdade pessoal e de vida privada. Tudo isto tem de ser sacrificado se o assunto em questão for a sobrevivência física. Os direitos políticos são abolidos, as obrigações econômicas são abolidas, a vigilância total e o controle disciplinar rigoroso tornam-se a única norma social prevalecente.

Se o “governo mundial” entrou em estado de emergência, se revelou incapaz ou nem sequer ousou superá-lo, ou foi simplesmente forçado a aceitá-lo, então isso significa que o paradigma que ainda ontem parecia inabalável foi abandonado. E, neste caso, ou não existe qualquer “governo mundial” e cada sociedade se salva como pode, ou o paradigma fundamental muda abruptamente e transforma-se em outra coisa. Tanto no primeiro como no segundo caso, a antiga ordem entrou em colapso e algo de novo está a ser construído diante dos nossos próprios olhos.

Estas conclusões radicais não estão apenas relacionadas com a dimensão da pandemia, que ainda nem sequer é tão grande. Muito mais importante é a percepção da epidemia pelas elites do poder, que tão rápida e facilmente abandonaram as suas fundações aparentemente invioláveis. Esta é a coisa mais elementar. As medidas destinadas a combater o coronavírus já minaram os fundamentos da democracia liberal e do capitalismo, abolindo rapidamente o tema do próprio poder. A partir de agora, o “ego e o seu próprio” não é mais a base da legalidade e da legitimidade: nas condições do Estado de Emergência, o poder está sendo transferido para outra autoridade. Algo de novo está a tornar-se o portador da soberania.

E então, do que isto se trata?

O coronavírus enquanto sujeito determinante: os deuses seculares da peste.

Por um lado, pode-se dizer que o próprio coronavírus (o vírus tem o seu nome “real” por uma razão) está demonstrando um estatuto único em relação ao do sujeito. Para melhor compreender isto, podemos recordar os antigos deuses da peste, que eram considerados deidades formidáveis nas crenças religiosas dos povos do Oriente Médio. Os povos da Mesopotâmia tinham Erra, Nergal e outros, e nas tradições monoteístas, em particular no judaísmo, as pragas eram enviadas pela divindade suprema, Yahweh, para punir os judeus por idolatria. Na Idade Média, epidemias e pragas eram consideradas sinais de punição divina. A sociedade tradicional pode justificadamente conferir o estatuto de subjetividade aos fenômenos de larga escala ou ligá-los ao elemento divino. No entanto, na Nova Era da Modernidade, o homem se considerou o completo mestre da vida, daí o desenvolvimento da medicina moderna, drogas, vacinas, etc. Portanto, é como se a completa incapacidade dos governos de neutralizar o coronavírus hoje em dia estivesse lançando a humanidade para além dos limites da Nova Era. Mas o Deus ou deuses a quem a praga do vírus moderno poderia ser atribuída não mais existem. O mundo moderno está convencido de que o vírus deve ter uma origem terrena, material e imanente. Mas que tipo de materialidade é mais forte do que o homem? Surgem assim as muitas teorias conspiratórias que ligam a origem do vírus a malfeitores que aspiram a estabelecer o seu controle sobre a Humanidade. Para os filósofos do “realismo especulativo”, que há décadas vêm pensando na necessidade de substituir a humanidade por um sistema de objetos — seja Inteligência Artificial ou ciborgues — o próprio vírus poderia muito bem receber o status de ator soberano, uma espécie de hiperobjeto (a la Morton) capaz de subjugar as massas de seres à sua vontade, assim como o mofo, o rizoma, e assim por diante. Em outras palavras, o colapso do modelo liberal traz para o primeiro plano a hipótese do ator pós-humano, pós-humanista.

O coronavírus, cujo nome latino significa literalmente “o veneno coroado”, é assim (pelo menos teoricamente) um adversário do centro do novo sistema mundial. Se a principal preocupação da humanidade a partir de agora for combater o vírus, lutar contra ele, proteger-se contra ele, etc., então todo o sistema de valores, regras e garantias será reconstruído de acordo com princípios e prioridades absolutamente novos. Os realistas especulativos vão ainda mais longe e já estão prontos para reconhecer no hiperobjeto a presença de entidades infernais dos antigos deuses do caos que emergem do fundo da existência, mas não é necessário ir tão longe, na medida em que, se nos limitarmos a pressupor que a racionalidade política, econômica e ideológica será eregida daqui em diante em torno da neutralização dos vírus contagiosos, viveremos em um mundo diferente — por exemplo, em um mundo higienocêntrico —, organizado de uma forma completamente diferente do mundo moderno. O “Ego”, o “seu próprio” e todas as estruturas que garantem-lhes previsibilidade, estabilidade e proteção, que os elevam ao estatuto dos fundamentos da legalidade e legitimidade, serão empurradas para o segundo plano, enquanto que o coronavírus ou o seu análogo estabelecerá uma hierarquia diferente, uma ontologia política e econômica diferente, uma ideologia diferente.

O Estado vs. o coronavírus. Mas qual estado?

Se olharmos para a forma como a luta contra o coronavírus está se desdobrando hoje, podemos observar um aumento abruptamente agudo do papel do estado, que ao longo da globalização foi consideravelmente relegado para o segundo plano. É ao nível do estado que estão a ser tomadas decisões sobre quarentena, auto-isolamento, proibição de viagens, restrições às liberdades e medidas econômicas. Na verdade, em todo o mundo — seja abertamente ou por tabela — foi declarado o estado de emergência. Segundo os clássicos do pensamento político, e em particular Carl Schmitt, isto significa o estabelecimento de um regime ditatorial. O soberano, segundo Schmitt, é aquele que toma a decisão em uma situação de emergência (Ernstfall), e hoje este alguém é o estado. No entanto, não se deve esquecer que o estado de hoje se baseou, até ao último momento, nos princípios da democracia liberal, do capitalismo e da ideologia dos direitos humanos. Em outras palavras, este estado está, em certo sentido, prestes a decidir sobre a liquidação da sua própria base filosófica e ideológica (mesmo que, por agora, tais medidas sejam formalizadas como temporárias, o Império Romano começou com a ditadura temporária de César, que veio a gradualmente tornar-se permanente). Sendo assim, o estado está sob rápida mutação, tal como o próprio vírus está em mutação, e o estado está seguindo o coronavírus nesta luta em constante evolução, que está levando a situação para cada vez mais longe do ponto de vista da democracia liberal global. Todas as fronteiras existentes, que até ontem pareciam ter sido apagadas ou semi-apagadas, estão ganhando novamente um significado fundamental — não só para aqueles que irão atravessá-las, mas também para aqueles que simplesmente conseguiram regressar a tempo ao seu país. Ao mesmo tempo, em países maiores, esta fragmentação está sendo transferida para regiões individuais, onde os estados de emergência estão conduzindo ao estabelecimento das suas próprias ditaduras regionais, que, por sua vez, serão reforçadas à medida que a comunicação com o centro se torna mais difícil. Esta fragmentação continuará até às pequenas cidades e mesmo aos lares individualmente, onde o fechamento forçado abrirá novos horizontes e suscitará volumes de violência doméstica.

O estado está assumindo a missão de combater o coronavírus sob determinadas condições, mas está travando esta luta em circunstâncias já diferentes. Ao longo desta missão, todas as instituições estatais relacionadas ao direito, à legalidade e à economia estão sendo transformadas. Assim, a própria introdução da quarentena inverte completamente a lógica do mercado, segundo a qual só o equilíbrio da oferta e da procura e os acordos firmados entre empregador e empregado podem regular as relações entre eles. As proibições de trabalhar por razões higiênicas estão demolindo irrevogavelmente todo o edifício do capitalismo. A suspensão da liberdade de circulação, de assembleia e dos procedimentos democráticos estão bloqueando as instituições da democracia política e paralisando as liberdades individuais.

Ditadura pós-liberal


Ao longo desta epidemia, está surgindo um novo estado que está começando a funcionar com novas regras. É muito provável que, no processo do estado de emergência, haja uma transferência de poder dos governantes formais para os funcionários técnicos e tecnológicos, por exemplo, os militares, os epidemiologistas e as instituições criadas especialmente para essas circunstâncias extremas. A ameaça física que o vírus representa para os dirigentes obriga-os a serem colocados em condições especiais que nem sempre são compatíveis com o controle pleno das situações. À medida em que as normas legais são suspensas, novos algoritmos de comportamento e novas práticas começam a ser implantados. Nasce assim o estado ditatorial, que, ao contrário do estado liberal-democrático, tem objetivos, fundamentos, princípios e axiomas completamente diferentes. Neste caso, o “governo mundial” é dissolvido, porque qualquer estratégia supranacional perde todo o sentido. O poder está rapidamente passando para um nível cada vez mais baixo — mas não para a sociedade e não para os cidadãos, mas para o nível militar-tecnológico e médico-sanitário. Uma racionalidade radicalmente nova está ganhando força — não a lógica da democracia, da liberdade, do mercado e do individualismo, mas a da pura sobrevivência, pela qual a responsabilidade é assumida por um sujeito que combina poder direto e a posse da logística técnica, tecnológica e médica. Além disso, na sociedade conectada, esta assenta em um sistema de vigilância total, excluindo qualquer tipo de privacidade.

Assim, se em um extremo temos o vírus como objeto de transformação, no outro extremo temos a vigilância médico-militar e a ditadura punitiva fundamentalmente diferente em todos os parâmetros do estado que conhecíamos até ontem. Não é de modo algum garantido que um estado como tal, na sua luta contra os “deuses da peste” seculares, coincidirá precisamente com as fronteiras das entidades nacionais existentes. Uma vez que não haverá ideologia ou política para além da lógica inequívoca da sobrevivência, a própria centralização perderá o seu significado e a sua legitimidade.

Da sociedade civil à “vida nua”

Recordemos aqui mais uma vez a “vida nua” de Giorgio Agamben, que em uma linha semelhante e com base nas ideias de Schmitt sobre o “estado de emergência”, analisou a situação nos campos de concentração nazistas, onde a desumanização das pessoas atingiu o extremo, sob o qual a “vida nua” veio a se revelar. A “vida nua” não é vida humana, mas alguma outra vida que está para além dos limites da autoconsciência, personalidade, individualidade, direitos, etc. Eis o porquê de Agamben ter sido mais radical do que outros e ter se oposto às medidas tomadas contra o coronavírus, preferindo mesmo a morte do que a introdução de um estado de emergência. Ele viu claramente que mesmo um pequeno passo nessa direção irá mudar toda a estrutura da ordem mundial. Entrar na fase da ditadura é fácil, mas sair dela é, por vezes, impossível.

A “vida nua” é a vítima do vírus. Não se trata de pessoas, famílias, cidadãos ou detentores de propriedades privadas. Aqui não há um e nem muitos. Há apenas o fato da infecção, que pode transformar qualquer pessoa — incluindo a si própria — em uma outra e, por conseguinte, no inimigo da “vida nua”. E é combatendo esta outra, esta “vida nua”, que se concede à ditadura o novo estatuto do sujeito. Logo, a própria sociedade, à mercê da ditadura, será transformada em “vida nua” organizada pela ditadura, de acordo com a sua própria racionalidade peculiar. Sob o medo do coronavírus, as pessoas estão prontas a seguir qualquer passo daqueles que assumiram a responsabilidade pelo estado de emergência.

Assim sendo, a divisão fundamental entre os saudáveis e os doentes, tratada como tal por Michel Foucault no seu livro Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão, torna-se ainda mais intransitável de uma linha do que todas as oposições das ideologias clássicas da Modernidade, por exemplo, entre a burguesia e o proletariado, os arianos e os judeus, os liberais e “inimigos da sociedade aberta”, etc., e verá a sua linha divisória estabelecida entre os pólos da “vida nua” e os “tecnólogos médicos”, que têm em suas mãos todos os instrumentos da violência, da vigilância e da autoridade. A diferença entre os já doentes e os ainda não doentes, que inicialmente justificou a nova ditadura, será apagada, e a ditadura dos virologistas, que construiu uma nova legitimidade com base nesta distinção, criará um modelo completamente novo.

A nova ditadura não é fascismo e nem comunismo

Esta situação parecerá para muitos reminiscente do fascismo ou do comunismo, mas estes paralelos são imaginários. Tanto o fascismo quanto o comunismo representavam tipos de “sociedade civil”, embora totalitária, com ideologias pronunciadas que garantiam direitos civis — não a todos, mas à significativa e, de fato, esmagadora maioria dos seus cidadãos. O liberalismo, ao reduzir todas as identidades ao nível do indivíduo, abriu caminho e criou as condições para um tipo especial de ditadura pós-liberal que, ao contrário do comunismo e do fascismo, não deveria ter qualquer ideologia, na medida em que não terá qualquer razão para persuadir, mobilizar ou “seduzir” o elemento da “vida nua”. A “vida nua” já está conscientemente preparada para se render à ditadura, independentemente do que prometa ou insista. As estruturas de uma ditadura do tipo serão construídas com base no fato de se opor ao vírus, e não com base em ideias e preferências. A ditadura médico-militar se caracterizará por uma lógica pós-liberal, para a qual a única operação será o tratamento racional da “vida nua”, cujos portadores não têm quaisquer direitos nem identidade. Esta ordem será edificada ao longo da bacia infectada vs. a saudável, e este código duplo será tão poderoso quanto óbvio, sem necessidade de qualquer justificação ou argumentação.

Inteligência Artificial e seus inimigos

Neste ponto, ocorre-nos a seguinte consideração: nos portadores de uma ditadura antiviral pós-liberal como tal, não vemos praticamente nenhum traço propriamente humano. Qualquer humanidade só dificultaria a operação mais eficaz sobre a “vida nua”, representando assim um inquietante, estremecedor caos de busca à sobrevivência a todos os custos. Consequentemente, a Inteligência Artificial, o cálculo mecânico abstrato, seria a melhor forma de lidar com esta tarefa. Na ditadura militar-médica, temos em vista uma dimensão cibernética distinta, algo com a natureza de uma máquina e mecânica. Se a “vida nua” é o caos, então deve haver uma fria ordem matemática no outro pólo. E a partir de agora, a sua única legitimação não será o consentimento da sociedade, que perderá tudo, mas sim o próprio critério da sua capacidade de tomar decisões lógicas equilibradas sem ser afetada por emoções e paixões supérfluas. Portanto, mesmo que uma ditadura médico-militar higiênica seja estabelecida por pessoas, mais cedo ou mais tarde os seus principais portadores serão, mais cedo ou mais tarde, máquinas.

Não haverá retorno

Algumas conclusões podem ser extraídas desta análise preliminar do futuro próximo — o futuro que já começou:

1. É impossível retornar à ordem mundial que só existiu até recentemente e que parecia tão familiar e natural que ninguém pensava na sua efemeridade. O liberalismo ou não chegou ao seu fim natural e o estabelecimento de um “governo mundial”, ou o colapso niilista era a sua meta original, meramente encoberto por uma decoração “humanista” cada vez menos convincente e cada vez mais perversa. Proponentes do “aceleracionismo” filosófico falam do “Iluminismo Negro”, enfatizando este aspecto obscuro e niilista do liberalismo como representando meramente o movimento acelerado do homem em direção ao abismo do pós-humanismo. Porém, para todos os casos, em vez de “governo mundial” e democracia total, estamos imergindo em uma era de nova fragmentação, de “sociedades fechadas” e de ditadura radical, excedendo talvez os campos de concentração nazistas e os gulags soviéticos.

2. O fim da globalização não significará, contudo, uma simples transição para o sistema vestefaliano, para o realismo e para um sistema de estados de comércio restrito (Fichte). Algo do tipo exigiria a ideologia bem definida que existia no início da Modernidade, mas que foi completamente erradicada na Modernidade tardia, e especialmente na Pós-Modernidade. A demonização de qualquer coisa remotamente parecida com “nacionalismo” ou “fascismo” levou à total rejeição das identidades nacionais, e agora a severidade da ameaça biológica e a sua natureza fisiológica grosseira torna os mitos nacionais supérfluos. A ditadura militar-médica não necessita de métodos adicionais para motivar as massas, e além disso, o nacionalismo apenas aumenta a dignidade, a autoconsciência e o sentimento civil da sociedade que contradizem as regras da “vida nua”. Para a sociedade que está por vir, há apenas dois critérios — o saudável e o doente. Todas as outras formas de identidade, incluindo as nacionais, não têm qualquer significado. Aproximadamente o mesmo se aplicava ao comunismo, que era também uma ideologia motivadora que mobilizava a consciência dos cidadãos para a construção de uma sociedade melhor. Todas estas ideologias são arcaicas, sem sentido, obsoletas e contraproducentes na luta contra o coronavírus. Portanto, seria errado ver qualquer “novo fascismo” ou “novo comunismo” no iminente paradigma pós-liberal. Será algo mais do que isso.

3. Não se pode ignorar que esta nova etapa afete de tal forma a vida da humanidade ou o que restará dela que, tendo passado por todas estas provações e tribulações, a humanidade estará pronta a aceitar qualquer forma de poder, qualquer ideologia e qualquer ordem que enfraqueça o terror da ditadura da Inteligência Artificial-militar-médica. E depois, em um ciclo, não podemos descartar um regresso ao projeto de “governo mundial”, mas este já estará em uma base completamente diferente, porque a sociedade terá se modificado irreversivelmente ao longo do período de “quarentena”. Não mais será a escolha da “sociedade civil”, mas o grito de “vida nua”, que reconhecerá qualquer autoridade que possa oferecer libertação do horror que aconteceu. Este seria o momento certo para o que os cristãos chamam da aparição do “Anticristo”.

Exagero e liquidação dos líderes

Seria esta previsão analítica um exagero demasiado dramatizado? Penso ser bastante realista, muito embora, é claro, “ninguém saiba a hora certa”, e em qualquer situação tudo pode ser adiado por algum tempo. A epidemia pode acabar abruptamente e uma vacina poderá ser encontrada. Mas tudo que já aconteceu nos primeiros meses de 2020 — o colapso da economia mundial, todas as medidas radicais na política e nas relações internacionais impostas pela pandemia, a ruptura das estruturas da sociedade civil, as mudanças psicológicas e a introdução de tecnologias de controle de vigilância — é irreversível. Mesmo que tudo pare agora, a globalização liberal demorará tanto tempo a regressar ao seu tão adiado final que muitos aspectos críticos da sociedade já terão sofrido profundas transformações. Ao mesmo tempo, o próprio pressuposto de um fim rápido da pandemia não pertence à classe das análises, mas ao domínio dos contos de fadas ingênuos com finais felizes. Olhemos a verdade nos olhos: o mundo liberal global entrou em colapso perante os nossos próprios olhos, tal como a URSS e o sistema socialista mundial caíram em 1991. A nossa consciência recusa-se a acreditar em mudanças tão colossais, e especialmente na sua irreversibilidade. Mas nós temos de acreditar. É melhor conceitualizá-las e compreendê-las antecipadamente — agora, enquanto as coisas ainda não se tornaram tão agudas.

Finalmente, pode parecer que esta pandemia é uma oportunidade para os líderes políticos que, hipoteticamente, não se importariam de aproveitar uma situação tão extrema para reforçar o seu poder. Mas isto só poderia funcionar por pouco tempo, porque a lógica da “vida nua” e da ditadura militar-médica pertence a um registro completamente diferente do que o líder mais autoritário do sistema mundial moderno poderia imaginar. Quase nenhum dos atuais governantes será capaz de manter o seu poder por tanto tempo e de forma tão confiável sob condições tão extremas. Todos eles, de uma forma ou de outra, retiram a sua legitimidade das estruturas dessa democracia liberal que está prestes a ser abolida perante os nossos próprios olhos. Esta situação exigirá dados, competências e personagens completamente diferentes. Sim, é provável que iniciem esta consolidação do poder, e até já começaram a fazê-lo, mas é pouco provável que durem muito tempo.

Há algo genuinamente novo à nossa espera, e é algo muito provável e realmente aterrador.
Fontes das Informações
  • Amei
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